Editorial

Autores

  • José Carlos Calich Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

Palavras-chave:

Editorial, Calich, Psicanálise

Resumo

A concepção de um fenômeno inconsciente como centro da realidade psíquica e sua sistematização estruturou a teorização freudiana e a de seus seguidores, colocando a psicanálise como pensamento único, distinto de todas as outras áreas do saber humano.
Por ser um termo definitório, confunde-se com a própria essência da psicanálise. A evolução das teorias psicanalíticas, no entanto, com seus diferentes prismas, lógicas internas variadas e leituras diversificadas, interagindo com o desenvolvimento de outras áreas do conhecimento e associada ao estudo de patologias mais regressivas e de fenômenos mentais tanto mais primitivos quanto complexos, traz tensões ao conceito que demandam reflexão sobre sua unidade e coerência.

Pensamos que esta reflexão devesse ocorrer como um corte, a exemplo de tantas outras com igual propósito. Assim, propusemos um corte que visasse não uma revisão conceitual com a compilação das teorias já existentes, mas que possibilitasse, através da compreensão das tensões, a abertura de caminhos para a expansão do tema.

Tendo em mente os referenciais do como pensar o inconsciente, o pensar sobre o pensar (epistemologia) e o pensar contextualizado (diferentes referenciais teóricos), solicitamos aos autores que produzissem textos inéditos sobre o tema, com suas visões pessoais e ‘colocassem o conceito a trabalhar’ (seguindo a consagrada formulação de Laplanche).

Os artigos foram solicitados a destacados pensadores da psicanálise de distintas regiões geográficas e com tendências teóricas diferentes: Jean Laplanche, Charles Hanly, Salomon Resnik, Norberto Marucco, José Milmaniene, Jorge Ahumada, Paulo Cesar Sandler, Roaldo Machado e ao grupo de estudos sobre epistemologia psicanalítica, de nossa Sociedade.

O resultado foi um conjunto de excepcional qualidade, com novos e originais aportes teóricos, importantes contribuições tanto para a expansão da noção de inconsciente como para a compreensão dos fenômenos psíquicos complexos (principalmente para as organizações limítrofes, para as chamadas patologias atuais com predomínio da ação e da adição e fenômenos primitivos como fanatismo e psicopatia),
possibilitando suportes para a evolução da teoria da técnica.

Jean Laplanche amplia seu modelo da Teoria da Sedução Generalizada, alberga em um mesmo “aparelho da alma”, simultaneamente, o inconsciente recalcado, o inconsciente encravado e o pseudo-inconsciente do mito-simbólico, conceitos esses introduzidos no artigo aqui presente.

Charles Hanly apresenta uma crítica fundamentada à evolução daquilo que sublinha como sendo a “guinada relacional”, ou seja, o abandono do modelo pulsional com a ênfase “irredutível” na subjetividade dada pela teoria das relações de objeto, principalmente nos seus desenvolvimentos na América do Norte, correlacionando-a com uma possível alteração do conceito de inconsciente, que ficaria implícita nestas teorias.

Salomon Resnik, através de um texto repleto de citações literárias, psicanalíticas e filosóficas, procurou relacionar a apresentação clínica das manifestações do inconsciente, suas máscaras, com sua natureza ontológica e seu realismo.

Norberto Marucco, através de desenvolvimentos de seus conceitos de formas de inconscientização e zonas psíquicas, aborda o “analisando de hoje”, o lugar e papel do analista, bem como o desligamento, o cerceamento da potência da pulsão, que chama de “surdez libidinal”, levando-o a formular o conceito de um inconsciente gerado por “trauma cumulativo”.

José Milmaniene, partindo de um referencial lacaniano, faz evoluir o conceito de inconsciente forcluído, relacionando-o às patologias do gozo, à despoetização do inconsciente (ligada a um núcleo residual irredutível à metaforização), apresentando seus componentes sócio-culturais e as repercussões destes últimos no processo psicanalítico.

Jorge Ahumada e Paulo Cesar Sandler, aos quais solicitamos especificamente textos sobre ‘epistemologia do inconsciente’, abordam de forma complementar, a situação do pensamento psicanalítico frente às principais questões da filosofia do pensamento contemporâneo, procurando aproximar-se da essência de nossa disciplina e de seu método.

Roaldo Machado contribui com sua visão atual sobre a questão da representação. Partindo de um referencial essencialmente freudiano, desenvolve a questão dos três níveis de registro e sua articulação na estruturação do inconsciente.

O grupo de estudos sobre epistemologia psicanalítica de nossa Sociedade,
coordenado pela editora associada de nossa Revista, Viviane Sprinz Mondrzak, aborda preliminarmente a questão do inconsciente pensado à luz da teoria do caos e da complexidade.

Quanto a mim, em um artigo inicial, com a finalidade de servir de introdução ao tema, procurei situar algumas das atuais tensões a respeito da noção de inconsciente.

Nossos agradecimentos a todos os autores pela disponibilidade, interesse e qualidade das contribuições.

Este é o último número comemorativo dos 10 anos da Revista de Psicanálise da SPPA, dos 40 anos da fundação da SPPA e o último número desta gestão.

Nos quatro anos que se passaram, uma agradável, porém laboriosa meta de manter a qualidade crescente da Revista foi insistentemente buscada. O trabalho em equipe a permitiu e a amizade o temperou e amenizou. Minha sincera gratidão a todos os membros da Comissão Editorial, bem como aos colegas que colaboram nos Conselhos de Revisores e Consultivo.

Meus agradecimentos à diretoria da SPPA, principalmente pela confiança e pela liberdade que permitiu o continuado desenvolvimento da Revista.

Também a dona Irma Manassero, Clotilde Favalli, Luiz Cezar F. de Lima, Mônica Nodari, Lívia Amaral e Liziane Cruz pelo apoio inestimável que prestaram à Revista.

Ao novo grupo Editorial, o desejo de muito trabalho e sucesso. Ao finalizar e me despedir, desejo que, em 2004 e no futuro, na impossibilidade de desejar que o construtivo suplante o destrutivo – pela realidade que o conhecimento do inconsciente nos propicia – tenhamos pelo menos o que está ao nosso alcance: a integridade ética de aceitar e enfrentar aquilo que já não pode mais não ser conhecido, possibilitando continuarmos crescendo com valores humanos melhores e um otimismo realista.


A todos uma boa leitura.
Dezembro de 2003
José Carlos Calich
Editor da Revista de Psicanálise da SPPA

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Biografia do Autor

José Carlos Calich, Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

Editor da Revista de Psicanálise da SPPA

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Como Citar

Calich, J. C. (2003). Editorial. Revista De Psicanálise Da SPPA, 10(3), 385–387. Recuperado de https://revista.sppa.org.br/RPdaSPPA/article/view/921

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