v. 33 n. 3 (2026): Sobre o masculino
Sobre o masculino, remete a tantas e tão variadas possibilidades de abordagem que poderíamos pensá-lo no plural, nos tantos masculinos evidenciados pelas transformações dos tempos atuais.
Falar sobre o masculino implica adentrar na história da sexualidade humana que, como explica André (2025) é descontínua, impossível de ser contada em uma linha evolutiva cujo caminho vai da repressão mais implacável à emancipação total.
Não há muito tempo, atribuía-se aos homens o trabalho e o sustento e às mulheres as lides domésticas e o cuidado dos filhos, expressão de uma ordem androcêntrica que dava forma à sexualidade e à subjetividade. Nesse sentido, como propõe Deleuze (1998), o masculino ocuparia o lugar molar do poder simbólico dominante, enquanto mulheres e crianças percorreriam “devires-minoritários”, abertos a possibilidades de transformação.
Diante das intensas mudanças contemporâneas, cabe perguntar se não estamos assistindo a um deslocamento dessa forma, com o masculino passando por revisões em seus papéis, representações e modos de existir. O que permanece na subjetividade masculina e o que a transcende quando o tema é pensado no contexto da indissociabilidade entre constituição psíquica e os reordenamentos da cultura?
Segundo Eizirik (1998), masculinidade e feminilidade referem-se a um complexo de crenças sobre as diferenças anatômicas, articulado às fantasias inconscientes e à relação com o sexo biológico. Incluem identidade de gênero, papéis, escolha de objeto e comportamentos culturais. O autor destaca três dimensões: identidade de gênero nuclear, comportamento sexual fantasiado e atributos culturalmente definidos.
Os textos de Freud inauguram a compreensão do masculino como um processo não linear, afastando qualquer ideia de definição fixa ou origem estável. O masculino não é dado de antemão, mas se constitui por meio de conflitos, identificações e perdas, em relação à castração, ao desejo, à lei e à alteridade.
Com a noção de sexualidade infantil em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/1972) rompe com a redução do masculino à anatomia, propondo uma sexualidade e a hipótese de uma bissexualidade psíquica originária. Assim, o desenvolvimento masculino implica um percurso complexo, no qual o sujeito precisa elaborar a diferença sexual, deslocar seus investimentos iniciais e se identificar com a função paterna como representante da lei.
Os desenvolvimentos psicanalíticos, a partir de Freud, têm aprofundado e reforçado a ideia de uma estrutura psíquica que se ancora sobre certas bases imutáveis, como, por exemplo, a interdição estruturante (Freud) e a Lei do Pai (Lacan), fatores estes que retiram o sujeito do autoerotismo e do narcisismo, encaminhando-o ao predomínio genital, organizado ao redor da subordinação das pulsões e das identidades secundárias. Os tempos atuais parecem estar afetando a estrutura do edifício simbólico.
Várias são as possibilidades de análise: novos enredos familiares; a retirada narcísica dos investimentos no outro, cada um se relacionando com seu próprio espelho/tela; a grupalidade adolescente recrutada para o celibato (incel); o temor de ser ridicularizado ou rejeitado, ingredientes que podem levar todo menino à cooptação algorítmica de sites misóginos; a ilusão dos jovens, que creem estar em relação com o mundo quando estão se relacionando com o vazio das redes sociais; o declínio da castração, da relação humana, a ausência da função paterna, da figura homem-pai e ideais viris.
Alizade (2009) pontua a transformação cultural modificando o roteiro dos homens através dos reordenamentos histórico-sociais. O movimento feminista, surgido na esteira dos conflitos mundiais do século XX, introduz a discussão da subordinação feminina e a dominação masculina impregnada pelo secular discurso patriarcal. Em sua radicalidade, o efeito de suspensão da subserviência aos padrões culturais de virilidade não termina por suspender também o lugar da lei, da interdição, tão necessário para a estruturação psíquica?
Tem se mostrado relevante incluir no debate as questões relativas às transidentidades e aos processos de redesignação sexual, que ampliam e tensionam os referenciais tradicionais de masculinidade, bem como a revisão de polaridades clássicas – como ativo e passivo –, abrindo espaço para modos mais plurais de posicionamento subjetivo. Neste contexto, consideram-se ainda os novos arranjos de parentalidade, que deslocam modelos estabelecidos e introduzem outras formas de cuidados, presença e função paterna, com efeitos na constituição psíquica.
Ao mesmo tempo, a clínica contemporânea tem evidenciado a centralidade do desamparo e da agressividade na constituição do masculino, frequentemente articulados a impasses no campo vincular e dificuldades na relação com o feminino, por vezes expressas em dinâmicas de controle, ataque ou rejeição. Por sua vez, interessa-nos também explorar as potencialidades e aberturas presentes nas transformações atuais, reconhecendo nelas não apenas sinais de crise, mas possibilidades de reinvenção dos modos de ser, de se relacionar e de simbolizar.
O que é, afinal, o masculino? Como os desenvolvimentos teóricos têm nos subsidiado frente a esse contexto de transformações? O que observamos na clínica psicanalítica?




