Editorial

Autores

  • Renato Moraes Lucas Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

Palavras-chave:

Psicanálise, Transitoriedade

Resumo

Prezado(a) leitor(a)

Novamente celebramos a publicação de um novo número de nossa Revista. Transitoriedade(s) surgiu como continuidade da elaboração do processo traumático vivenciado recentemente por todos nós. Trilhando um caminho aberto por Freud em seu belo trabalho de 1915, buscamos enfrentar a solidão, a dependência, o desamparo e a impotência frente à morte, exaltando o potencial processo transformativo presente no perecimento, em que uma fruição estética pela fugacidade inerente a este movimento: morrer, renascer, brotar, crescer, desenvolver-se, envelhecer e novamente morrer, poderá liberar o indivíduo para o profundo ato de viver e seus sucessivos e criativos reinvestimentos.

Como nos ensina Bion, a maior aproximação de O deverá ser precedida por um estado de uníssono, consigo e para com o outro, uma experiência em essência aberta ao sensitivo e ao afetivo. Assim, iniciamos este número com o emocionante conto Quando a manhã luminosa de Clarice Kowacs, esperando propiciar ao leitor uma experiência encarnada do ser humano, perseguido pelo questionamento da inerente transitoriedade da vida, dos limites do que se poderia chamar de vida e do que verdadeiramente a anima. Por sua vez, Mário Tregnago Barcellos, em As emergências da mente – confissões a partir do conto Quando a manhã luminosa, entrega-se à experiência estética oferecida pela leitura do conto e relata de forma personificada seus momentos sensitivos e pensamentos, convidando-nos a nos deixar tomar pelo processo, quando a sinceridade do encontro consigo poderá abrir para a verdade da alteridade.

Em consonância com esse processo, Lidia Leonelli Langer. no artigo Viver o além, levanta a hipótese de que o além é uma experiência da vida cotidiana quando vivemos a paixão, que seria proveniente da busca, em uma nostalgia criativa da experiência pré-natal, na qual continente e conteúdo modificam-se mutuamente conforme o desenvolvimento e a vida. Estando inserido no infinito, o além seria uma condição que nos permitiria contribuir criativa e responsavelmente para a vida de todos. Em seguimento à compreensão dos primórdios da experiência humana, Giuseppe Civitarese estuda a estética do sublime e o conceito de sublimação no trabalho A identidade do terrível e da felicidade: sublime, sublimação e uníssono na arte e na psicanálise. A experiência estética, que em essência seria o espaço de sensações simbolicamente emoldurado, é estudada na arte e no processo de tornarse sujeito. Em referência às ideias de Civitarese, Ruggero Levy, em A intuição do paradigma estético em Freud? – Reflexões acerca do paradigma estético da psicanálise e ampliações da metapsicologia, sugere que a concepção estética da psicanálise já estaria presente no pensamento de Freud. Complementando esta série de trabalhos, publicamos Políticas do método: pesquisa entre psicanálise e arte, de Lucas de Oliveira Alves e Ana Lúcia Mandelli de Marsillac, em que, percorrendo a teoria psicanalítica e o campo da estética, é proposta uma análise das produções da cultura como criações que ultrapassam um tempo e intencionalidades conscientes, apresentando uma reflexão acerca do ato criativo em analogia às formações do inconsciente.

A seguir, Virginia Ungar, no artigo Transitoriedade(s), a partir de sua experiência com a recente pandemia e as condições da vida contemporânea, aborda a incerteza e o seu impacto nos processos de subjetivação, tomados como tempo fora dos eixos, tecendo um paralelo com o tempo na psicanálise, caracterizado pela ruptura de continuidade. O artigo Viver à intempérie: a vida em transitoriedades, de Keylla Tempel Jung e Rafael Werner Lopes, apresenta uma reflexão acerca da compreensão de Freud sobre a transitoriedade e a amplia com o pensamento filosófico de Martin Buber, abordando a noção de mansão cósmica e a experiência de intempérie como precipitantes da crise do ser humano sobre si mesmo.

Completando este número, trazemos o trabalho de Manola Vidal, Lou Andreas-Salomé e Rainer Maria Rilke: uma contribuição aos estudos sobre o bloqueio criativo. Embasada nas contribuições teóricas de Andreas-Salomé, a autora busca compreender as experiências de bloqueio criativo vivenciadas pelo poeta Rainer Maria Rilke e suas relações com o processo de eterna construção do objeto perdido presente no luto.

Desejamos uma agradável e produtiva leitura a todos!

 

Renato Moraes Lucas

Editor Chefe da Revista de Psicanálise da SPPA

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Biografia do Autor

Renato Moraes Lucas, Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

Editor chefe da Revista de Psicanálise, membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

Referências

Cortázar, J. (2019). Instrucciones para dar cuerda al reloj. In Historias de cronopios y de famas. Barcelona: Penguin Random House Grupo Editorial.

Publicado

2022-07-27

Como Citar

Moraes Lucas, R. (2022). Editorial. Revista De Psicanálise Da SPPA, 29(1), 7–9. Recuperado de https://revista.sppa.org.br/RPdaSPPA/article/view/1029

Edição

Seção

Editorial