Algumas reflexões sobre a interdição contemporânea ao pensar:
mal-estar atual?
Palavras-chave:
Pensamento, Mal-estar, Cultura, FreudResumo
O artigo examina se a interdição contemporânea ao pensar constitui uma nova modalidade de mal-estar, articulando três eixos argumentativos. No primeiro, reconstrói genealogicamente o conceito de pensamento contemporâneo a partir do positivismo à radicalização pós-moderna da suspeita nietzschiana, culminando no paradoxo contemporâneo de entusiasmo irrestrito pelos derivativos tecnológicos da razão acompanhado de hostilidade ao pensamento nos domínios ético, político e cultural. No segundo eixo, o artigo aceita a estrutura trágica da teoria freudiana em O mal-estar na cultura (1930), mas aponta duas insuficiências decisivas: a fusão deliberada de Kultur (Cultura) e Zivilisation (Civilização) contrai a cultura à sua função protetora-instrumental, silenciando a dimensão constitutiva da Bildung (Formação) – o cultivo de si como cultura animi –, elemento que a tradição ocidental, de Cícero a Hegel, identificou como traço diferenciador do humano; além disso, o apagamento da distinção entre plano genético e plano de validade compromete a autonomia normativa dos produtos do pensamento relativamente às suas condições pulsionais. No terceiro eixo, o artigo sustenta que o mal-estar produzido pela interdição ao pensar é qualitativamente distinto do Unbehagen (Mal-estar) freudiano: enquanto este é efeito colateral estrutural da repressão necessária à cultura, aquele ataca a condição de possibilidade da própria cultura, pois o pensamento não é mero instrumento reativo, mas faculdade espontânea e produtora de sentido.
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