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Editorial

Renato Moraes Lucas

Resumo


Prezado(a) Leitor(a),
Temos a satisfação de entregar o novo número da Revista de Psicanálise,
que, em um esforço suplementar da comissão editorial, foi elaborado integralmente de forma on-line. Sua edição nos emociona e orgulha por podermos trazer ao público uma série de trabalhos que fazem jus ao vivo pensamento de Donald Woods Winnicott.

Winnicott é um dos autores mais traduzidos e citados na literatura psicanalítica, apesar de nunca ter pretendido fazer escola (Roussillon, 2014). É notável como seu pensamento encontra-se presente, seja de forma clara ou sutil, nos mais variados meios e culturas analíticas. Um pensamento estruturalmente dialético (Ogden, 1986/2017) que, em 50 anos de vida clínica, floresceu e resistiu desde os embates entre freudianos e kleinianos, passando pelo descrédito inicial decorrente da suposta superficialidade e simplicidade de seus escritos, para enfim se estabelecer em um lugar ímpar no cenário científico. Posição que se acresce e transcende ao seminal trabalho na psicanálise infantil desenvolvido por ele. Suas ideias fertilizam a produção teórica de inúmeros autores contemporâneos, que retomam as ideias de Winnicott e renovam-nas em sua clínica, especialmente àquelas abertas ao entendimento de traumas primitivos, às experiências do Infans, ao vivido, sentido e não ainda falável. São desenvolvimentos teóricos inestimáveis para a clínica atual e que repercutem em considerações técnicas. Uma psicanálise onde poderá se reeditar todo o processo da formação do sujeito e as perspectivas de entrada do objeto em um jogo relacional. No entanto, a que se deve tal capacidade de seguir fomentando tão fortemente o pensamento analítico? Importante aqui apenas esboçar linhas que fundamentam a escolha de Winnicott como tema desse número. Masud Khan, descrevendo o impacto da presença de Winnicott, refere: “Jamais conheci outro analista que fosse tão inevitavelmente ele mesmo. Era essa característica de ser inviolavelmente ele mesmo que lhe permitiu ser tantas pessoas diferentes para tanta gente” (Winnicott, 1958/2000, p. 11, grifos nossos). Segue dizendo que “cada um de nós que o conhecemos tinha seu próprio Winnicott” (p. 11), para então concluir que o clínico Winnicott formava um bloco único, inteiriço, com a pessoa Winnicott.

Essa descrição parece apoiar a ideia que as experiências de ser, a constituição do sujeito em si, ou seja, a verdade íntima do que se é e do que não se é, toma a frente como meta constitucional primitiva. Talvez uma meta assintótica, pois Winnicott sempre considerou o objeto como indissociável na constituição do sujeito, sendo sobretudo, como refere Roussillon (2014), um objeto capaz de sacrificar-se, deixarse apagar pela necessidade inicial e, a seguir, sobreviver à angústia da alteridade percebida pelo sujeito que está se constituindo, para finalmente compor uma relação de objeto: ambos os participantes são sujeito e objeto na relação entre seus verdadeiros selfs. Tal núcleo doaria verdade também àquilo que se poderia ser como analista, ao mesmo tempo em que se abriria para a particularidade/individualidade do paciente. Seria, em suma, o grande orientador do processo analítico. Desta forma, as experiências de ser e do ser, suas vicissitudes e a originalidade de cada indivíduo, que nos parece inovador na teorização de Winnicott e central também no trabalho clínico, tornou-se o fio condutor do presente número.

A convivência com a plena individualidade decorrente do sujeito pleno, como poeticamente nos recomenda Fernando Pessoa, marcaria a passagem de cada um. Com certeza tal pensamento marcou a presença na vida de um dileto colega, Romualdo Romanowski, que esse ano nos deixou, e para quem publicamos uma homenagem através das palavras de Zelig Libermann. Esperamos que esta sensível carta para o amigo Romualdo possa dar a dimensão do que ele representou e seguirá representando dentro de nossa sociedade, bem como para aqueles que estiveram mais próximos dele.

Os dois primeiros artigos publicados neste número buscam discutir o processo de constituição do sujeito pela presença do objeto e sua posterior e necessária percepção deste como não-Eu. Anna Ferruta, em O encontro entre o sujeito e o objeto não-Eu, realiza um minucioso estudo do pensamento de Winnicott acerca das relações objetais, desde a constituição do sujeito através do objeto transicional até o estabelecimento da alteridade. Para tanto, lança mão do conceito de integridade dos objetos (Bollas), uma estrutura potencial capaz de iniciar processos associativos e elaborativos. A seguir, Bernard Golse, em O sense of being em relação à criatividade. Ser ou existir?, discute duas possibilidades de entendimento do conceito de sense of being de Winnicott: o sentimento de ser, que  consiste em uma etapa pré-existente à descoberta do objeto e onde o vínculo, e não o objeto, seria representado, e o sentimento de existir, que se refere ao ambiente e aos objetos que o compõem, então representados através da criatividade do brincar, permitindo o surgimento da intersubjetividade e do status subjetivo.

A publicação em português do artigo de René Roussillon, A criatividade: um novo paradigma para a psicanálise freudiana, busca trazer aos leitores de nossa língua o estudo do conceito de criatividade de Winnicott conforme desenvolvido em O Brincar e a realidade, colocando-o em diálogo com a metapsicologia freudiana. Assim, defende que o fenômeno da alucinação em Freud, pela concepção de Winnicott, seria um fenômeno psíquico na presença do objeto, pelo mecanismo de espelhamento, e em que o percebido poderia encontrar o alucinado e confirmar a concepção ilusória do criado-encontrado, definindo, por esta via, o que Freud referia como sendo domínio pulsional. As qualidades do feminino puro e de meio maleável do objeto são descritas para a adequada inscrição desses momentos informes vividos pelo infans. Uma fase subsequente da descoberta do objeto como outro-sujeito determinará que este se deixe usar, podendo ser “destruído” e sobreviver. Este movimento de jogo entre sujeito e objeto constituiria uma criatividade primária automática na fase vivida em processo ilusório e uma criatividade voluntária no contato com o objeto outro-sujeito.

Dois trabalhos são apresentados a seguir, considerando-se a sua interrelação conceitual com a criatividade. A elaboração imaginativa na origem da vida psíquica e suas implicações clínicas, de Marcia Regina Bozon de Campos e Leopoldo Pereira Fulgencio Junior, busca situar o surgimento e o desenvolvimento da noção de elaboração imaginativa na obra de Winnicott. A capacidade de elaborar imaginativamente sensações corporais nos primórdios da existência permitiria a integração psicossomática e a conexão entre o campo da sensorialidade, o campo afetivo e a vida de representação, estando na origem da possibilidade de
criar, sonhar, fantasiar, devanear, brincar e simbolizar. Eneida Iankilevich, em A presença da ausência do pai no desenvolvimento “rumo à independência”, estuda, a partir de vivências clínicas, a relação com o pai como fator de construção e reconstrução da identidade nas várias etapas da vida, apoiando-se nas concepções de Winnicott da passagem da dependência absoluta em direção à independência. Com base ainda nas formulações de Faimberg, busca dar sentido à necessidade da presença de um pai ao longo do desenvolvimento, como se referia Winnicott: para usufruir da rivalidade e da amizade que surge desta rivalidade entre os homens.

Em um caminho oposto àquele produzido pela adequada entrada do objeto na constituição do sujeito, surge o desenvolvimento teórico de Winnicott sobre o medo do colapso. No artigo O medo da loucura no contexto do a posteriori  (Nachträglichkeit) e a reação terapêutica negativa, Jan Abram retoma a experiência de colapso consequente à desconstrução de uma defesa frágil recrutada pelo bebê traumatizado e que deveria ser revivida na transferência. Isto poria em revisão os conceitos freudianos de reação terapêutica negativa e de a posteriori, mas, sobretudo, ressaltaria as flutuações da relação pais-bebê, vividas primitivamente e reeditadas na relação analítica, que estão presentes no cerne da experiência passada e atual. A seguir, Maurício Marx e Silva apresenta Colapso e misoginia: da mitologia à perversão via web, no qual aborda a hipótese de que falhas no processo primordial constituiriam o núcleo de um narcisismo saudável a partir do espelhamento do duplo homossensual, levando inevitavelmente a algum grau de ambivalência contra o feminino, um núcleo misógino que, assim, seria de certa forma universal, eis que decorrente do desamparo inerente à imaturidade humana. Completando este conjunto, temos o trabalho O colapso do ritmo, de Luisa Maria Rizzo, que parte do impacto traumático da pandemia da COVID-19 para conduzir a sua leitura do medo do colapso. Apresenta a concepção de que a perda do ritmo relacional harmônico entre mãe/bebê ou, na atualidade de sua experiência, entre analista/paciente por ocasião da súbita passagem do setting analítico para via virtual, afetaria a necessária previsibilidade da relação por interferir no ritmo instituído e seguro.

A seguir, apresentamos quatro trabalhos que relacionam elementos teóricos de Winnicott com outros autores psicanalíticos. Winnicott & Klein: influências, continuidades e rupturas, de Leopoldo Pereira Fulgencio Junior, realiza uma análise crítica na compreensão das relações existentes entre as propostas teóricas de Klein e Winnicott, usando o conceito de inveja inata de Klein para considerar a concepção de Winnicott como uma aceitação do conceito ao integrá-lo em sua teoria. Luiza Moura, em Winnicott e a tradição ferencziana da elasticidade técnica, acompanha e integra elementos teóricos de ambos os autores, em especial o efeito traumatogênico do ambiente, quando incapaz de se adaptar às necessidades da criança, e a preocupação de expandir e adaptar a técnica para abarcar casos tidos tradicionalmente como não analisáveis, ressaltando, para tanto, o papel real do analista no processo. Sergio Gomes da Silva e Nelson Ernesto Coelho Júnior analisam a etiologia das neuroses em Freud e Winnicott no artigo Para uma nova etiologia das neuroses: notas a partir da teoria das relações objetais de Donald W. Winnicott. Partindo do estudo de elementos da psicanálise freudiana, os autores propõem uma nova etiologia a partir da teoria das relações objetais em Winnicott, orientando o uso da regressão à dependência a fases primitivas de falhas ambientais como parte da abordagem do sofrimento psíquico neurótico. Completa este grupo o trabalho de Walter José Martins Migliorini, que nos apresenta Método Esther  Bick: observação dos fenômenos transicionais durante o primeiro ano de vida, no qual estuda o conceito de objeto transicional associado ao método Esther Bick, procurando demonstrar o quanto a constituição, perda ou recuperação da experiência de transicionalidade indicam um papel marcadamente ativo do bebê na experiência de sustentar o jogo relacional com sua mãe.

Completamos a série de trabalhos dedicados a Winnicott com a reflexão de Ana Lúcia Monteiro Oliveira no estudo Poltrona elástica? Divã transicional? Reflexões sobre a minha poltrona giratória. O artigo procura demonstrar o processo de estabelecimento de um espaço transicional na relação analítica que sirva para ambos os constituintes do par. Cogita, desta forma, que o uso de uma poltrona giratória poderá ser uma possibilidade técnica para pacientes que não disponham ainda de condições de ir para o divã, ao mesmo tempo em que acompanha seu próprio processo de estabelecimento da identidade analítica. Acreditamos que essa reflexão possa exemplificar um transcurso para a aquisição do desenvolvimento teórico e técnico de Winnicott, bem como para a constituição do espaço analítico a serviço de ambos os participantes.

Encerramos o presente número, na seção Temas Diversos, com Vida anímica primitiva e subjetividade: o que realmente disseram as pioneiras Spielrein e Deutsch, de Idete Zimerman Bizzi. O artigo retoma proposições teóricas originais das duas autoras, demonstrando a sua integração nos futuros desenvolvimentos da teoria analítica, mas, em especial, enfatiza a primitiva interação entre sujeito e objeto, reeditada na transferência, motivo pelo qual considera as duas como precursoras da intersubjetividade.

Desejamos uma boa leitura!

Renato Moraes Lucas
Editor Chefe da Revista de Psicanálise da SPPA


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Referências


Ogden, T.H. (2017). A matriz da mente. Relações objetais e o diálogo psicanalítico. London: Karnac. (Trabalho original publicado em 1986)

Roussillon, R. (2014). La créativité : un nouveau paradigme pour la psychanalyse freudienne. In Exploration en psychanalyse, La créativité chez D.W.Winnicott. Wordpress, 2014.

Disponível em https://reneroussillon.com/creation/creativite-chez-dww/

Winnicott, D.W. (2000). Introdução por M. Masud R. Khan. In Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas (pp. 11-53). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1958)




DOI: https://doi.org/10.5281/sppa%20revista.v27i2.616

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