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Editorial

Renato Moraes Lucas

Resumo


Prezado Leitor,
Inicialmente queria manifestar o meu profundo agradecimento à diretoria da SPPA, na pessoa do então presidente Zelig Libermann, que, na metade de 2019, me convidou para suceder Lúcia Thaler como editor chefe da nossa revista. Talconvite suscitou um conjunto de emoções e reflexões acerca da construção do meu vínculo com a revista. Entrei na comissão editorial na gestão de Tula Bisol Brum e segui na editoria de Lúcia, tendo compartilhado com elas e com os colegas da comissão o clima que permeia a revista. Um ambiente acolhedor, afetuoso e motivador, constituindo um pertencimento incomum. São muitos os colegas que, ao pensarem no tempo de permanência na comissão, se surpreendem a respeito da sua longevidade, mas não se espantam com o afeto vivo que nutre o grupo e que ameniza o árduo trabalho da construção de cada número. Sou muito agradecido por esta experiência afetiva e tenho certeza que foi lá que me construí até este momento, como possivelmente aconteceu com os editores que me precederam. Sinto-me muito bem acompanhado para um trabalho integrado com as editoras associadas, Ana Cristina Pandolfo e Elena Beatriz Tomasel, e com toda a comissão atual: Cristiano Freitas Frank, Edgar Chagas Diefenthaeler, Karem Cainelli, Kátia Ramil Magalhães, Maria da Graça Motta, Regina Orgler Sordi e Vânia Elisabete Dalcin e com o dedicado trabalho de nossa bibliotecária Karine Diniz Herte.

Pretendemos manter a qualidade editorial de nossa revista, já nacionalmente reconhecida e estimada em outros centros do exterior, sendo considerada um meio de excelência na divulgação do pensamento psicanalítico contemporâneo. Contudo, observamos a barreira de língua e a consequente limitação do alcance de nossas edições. Planejamos pensar seriamente esta questão, pois acreditamos que a qualidade do conteúdo científico apresentado pela revista deveria abranger um público mais amplo, em consonância com a ideia de que as fronteiras do conhecimento científico precisam ser facilitadas, sem que se perca a especificidade de cada grupo.

O primeiro número temático deste ano, Neurose, poderá soar um tanto prosaico, uma vez que o termo, correspondendo a um conceito nuclear da teoria psicanalítica, teria seu uso e validade clínica assegurado simplesmente pela tradição de nossa ciência. Entretanto, sabemos que mesmo Freud, cuja preocupação central era apresentar os mecanismos psicogênicos das afecções, reclassifica o termo à medida que surgem novos desenvolvimentos teóricos. A classificação, que inicialmente a colocava fora do âmbito da psicose, passaria a incluir elementos da psicose dita maníaco depressiva. Este panorama evolui para colocar a Neurose em diferenciação das perversões e das psicoses. Contudo, no desenvolvimento posterior da teoria, em especial nas últimas décadas, surgem progressivos questionamentos: como dar conta do fato de que um indivíduo possa apresentar, digamos, núcleos dinâmicos ou estruturas tópicas mistas que não o acomodam em uma clínica pré-estabelecida? Como conectar as teorizações psicanalíticas contemporâneas acerca da representação com o conceito de Neurose? Enfim, na atualidade, podemos nós, psicanalistas, falar de um paciente neurótico? Ou podemos falar da dinâmica neurótica presente em um paciente, no qual poderá aparecer também uma manifestação clínica perversa ou psicossomática? É possível que, para ambos os questionamentos, possa existir uma resposta afirmativa. Tais inquietações nortearam a escolha deste tema e motivaram os autores a pensar e escrever suas contribuições.

O encadeamento dos artigos está organizado de forma a apresentar, no início, aqueles que discutam de forma prioritária a amplitude e a consistência do conceito de Neurose, seguido por artigos metapsicológicos e, por derradeiro, textos que repensam o tema em termos clínicos. Desta forma, o artigo de Florence Guignard, que inaugura a edição, constitui-se em uma minuciosa e didática revisão do conceito de Neurose na atualidade, interrogando a validade do mesmo frente às mudanças psíquicas e culturais contemporâneas. A seguir, temos o artigo de Michel Ody, em que o autor retoma o caso Frankie, atendido por Berta Bronstein na infância e por Samuel Ritvo quando adulto, além do clássico pequeno Hans de Freud, discutindo a validade da noção de neurose da criança, assim como os conceitos de neurose infantil e de neurose de transferência na criança. Ao final, usando um caso infantil de sua clínica, tenta integrar e discutir estes conceitos.

O segundo conjunto de trabalhos se inicia pelo longo artigo de Bernard Chervet. O autor realiza um profundo mergulho nos aspectos tópicos, dinâmicos e econômicos da metapsicologia, deixando evidente o bem sucedido esforço em apresentar a inter-relação de tais aspectos e, assim, compor a configuração do que chama de realidade neurótica. Em seguida, apresentamos o trabalho de Cláudio Laks Eizirik, que já fora publicado em inglês no The Psychoanalytic Quarterly (84, 2: 335-350). Agradecemos ao editor Jay Greenberg pela autorização para a tradução e publicação deste artigo em português, cuja conexão com o tema central da revista se refere ao estudo da formação psíquica do princípio paterno, o qual é colocado em articulação com a função enquadrante da mãe (Green). A princípio consistiria em um processo não conflitivo, e que entraria em favorecimento ao processo de renúncia da realização completa do objetivo pulsional do indivíduo, um núcleo do recalcamento que, desta forma, seria central no estabelecimento da estrutura neurótica. Como ilustração, são apresentados sensíveis trechos da transformação deste processo em escrita poética, fruto da relação psíquica de Carlos Drummond de Andrade com seu pai. Na parte final desse segundo bloco de trabalhos, Giuseppe Civitarese dedica-se ao estudo da Transformação em Alucinose de Bion, em que o indivíduo alucinaria o objeto carente de funções continentes tal como vivido em seus primórdios, observando a sua presença na microscopia tanto da Transformação em movimento rígido, típica da Neurose, quanto da Transformação projetiva presente na psicose, desconstruindo assim esta clássica oposição. Acrescenta que a intensidade da hipérbole seria a responsável por trazer a diferença, enfatizando que a tolerabilidade por parte do paciente (ou da dupla) de entrar em contato com certo conteúdo considerado verdadeiro deveria ser o elemento em jogo no atendimento de um paciente, e não o seu diagnóstico.

O terceiro grupo de artigos volta-se para considerações clínicas da Neurose. Alicia Beatriz Dorado de Lisondo faz um minucioso trabalho de resgate do Historial clínico do Homem dos lobos, colocando em paralelo, de um lado, o pensamento clínico de Freud acerca de um caso de “neurose” e, de outro, um conjunto de aportes técnicos e compreensões dinâmicas embasados na apreciação que um psicanalista contemporâneo teria sobre o mesmo. Em sua construção, enfatiza que os elementos traumáticos precoces vividos pelo paciente de Freud teriam uma abordagem diferente em posse do conhecimento técnico e metapsicológico posterior. Alírio Torres Dantas Junior volta-se para a Neurose obsessiva. Acompanhando as concepções de Freud, vai mostrar a estruturação desta configuração clínica, em especial sua rigidez pelo uso do pensamento, tanto como locus sintomático preferencial quanto como perpetuador do quadro, cabendo ao processo transferencial constituir-se na única saída possível para a mudança. Completa este conjunto o artigo de François-David Camps e Juan Sampedro Acevedo. A partir de material clínico, é estudado o papel do Masoquismo moral na construção do feminino, em que as vivências pré-edípicas para a preservação do amor materno estruturam um movimento melancólico de autoacusação e penitência, associando-se às vivências edípicas dominadas pela fantasia de sedução ao objeto incestuoso, as quais são reforçadas por elementos culturais.

Completam esta edição, na sessão de Temas Diversos, dois trabalhos. Lidia Leonelli Langer nos apresenta um tema incomum de estudo na psicanálise: a Esperança. Elabora esta disposição da alma como o encontro entre uma posição continente de ativa passividade da condição de gravidez e de conteúdo na sua passiva atividade da condição intrauterina. Tal equilíbrio seria rompido por ocasião do nascimento, trazendo um potencial desespero a ser atendido por um terceiro que ajude a organizar a esperança. Por fim, Ricardo Bernardi estuda a natureza das Metas dos tratamentos e sua relação com o processo psicanalítico. Originalmente publicado no The Psychoanalytic Quarterly (70, 1: 67-98), este artigo retoma as contribuições clássicas de Wallerstein e de J. Bleger, discutindo-as sobre um material clínico e sugerindo que tais metas estejam diretamente ligadas à variedade da prática real que os analistas exercem em seu cotidiano clínico e aos seus resultados.

Desejamos a todos uma produtiva leitura!

Renato Moraes Lucas
Editor Chefe da Revista de Psicanálise da SPPA


Palavras-chave


Editorial; Psicanálise

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