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Máquinas de escrever verdades e mentiras

Dominique Scarfone

Resumo


Examinando friamente, a capacidade de mentir é uma aquisição positiva da criança, que assim toma consciência da relativa autonomia de sua capacidade de pensar. O proton pseudos histérico, tal qual descrito por Freud no Projeto em 1895, insere-se nesta linha: mentira que, constituindose como sintoma, diz ao mesmo tempo a verdade do impacto do outro originário. O sujeito psicótico não dispõe desse luxo; seu delírio tenta, sem verdadeiro sucesso, dizer a verdade nua de sua experiência da alteridade. Por falta de uma mediação pela fantasia, o discurso assim exposto se torna delirante. A novela de Kafka Na colônia penal é citada para ilustrar que o corpo não pode ser traduzido, sem resíduo, em linguagem e que tentar inscrever a verdade no corpo não faz senão destruí-lo. É impossível pensar sem corpo, mas também não se pode pensar e dizer o corpo integralmente sem desnaturalizá-lo. O corpo impõe o recurso à analogia, que, sem ser uma mentira, também não é a pura verdade.

Palavras-chave: Verdade, mentira, proton pseudos histérico, fantasia, delírio, pensamento, corpo, Kafka, Lacan, Lyotard

 

Abstract
Machines to write truths and lies
Examining coldly, the ability to lie is a positive acquisition of the child, who thus
becomes aware of the relative autonomy of its ability to think. The hysterical proton pseudos, as described by Freud in the Project in 1895, is inserted in this line: lies as symptom, at the same time tell the truth of the impact of the originary other. The psychotic subject does not have this luxury; his delusion tries, without real success, to tell the naked truth of the experience of otherness. Lacking mediation by phantasy, the discourse becomes delirious. Kafka’s short story In the Penal Colony is quoted to illustrate that the body cannot be translated into language without residue, and that trying to inscribe the truth on to body does nothing but destroy it. It is impossible to think without body, however one also cannot think and say the body as a whole without denaturalizing it. The body imposes the use of analogy, which, although not being a lie, is not the truth either.

Keywords: Truth; Lie; Hysterical proton pseudos; Phantasy; Delusion; Thought;
Body; Kafka; Lacan; Lyotard

 

Resumen
Máquinas de escribir verdades y mentiras
Examinando fríamente, la capacidad de mentir es una adquisición positiva del niño, que así toma conciencia de la relativa autonomía de su capacidad de pensar. El proton pseudos histérico, como descrito por Freud en el Proyecto en 1895, se inserta en esta línea: mentira que, constituyéndose como síntoma, dice al mismo tiempo la verdad del impacto del otro originario. El sujeto psicótico no dispone de ese lujo; su delirio intenta, sin verdadero éxito, decir la verdad desnuda de su experiencia de la alteridad. Por falta de una mediación por la fantasía, el discurso así expuesto se vuelve delirante. El relato de Kafka En la colonia penal es citado para ilustrar que el cuerpo no puede ser traducido en lenguaje sin sobras; que intentar inscribir la verdad en el cuerpo no hace más que destruirlo. Es imposible pensar sin cuerpo, pero tampoco se puede pensar y decir el cuerpo integralmente sin desnaturalizarlo. El cuerpo impone el recurso a la analogía, que, sin ser una mentira, tampoco es la pura verdad.

Palabras clave: Verdad; Mentira, Proton pseudos histérico; Fantasía; Delirio;
Pensamiento; Cuerpo; Kafka; Lacan; Lyotard


Palavras-chave


Verdade, mentira, proton pseudos histérico, fantasia, delírio, pensamento, corpo, Kafka, Lacan, Lyotard

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Referências


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