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A bissexualidade psíquica na constituição do sujeito: sobre suas origens e destinos identitários

Cláudia Aparecida Carneiro, Eliana Rigotto Lazzarini

Resumo


O presente trabalho propõe uma compreensão da bissexualidade psíquica no curso do desenvolvimento psicossexual, objetivando investigar como esse fenômeno se inscreve nas origens da vida psíquica e modela os destinos identitários do sujeito. As autoras desenvolvem a ideia de que a bissexualidade se inscreve no psiquismo originário pela ação do objeto e participa tanto dos processos de subjetivação e de reconhecimento da diferença como também de seus impasses. Abordam o tema introduzindo aspectos teóricos da concepção freudiana do aparelho psíquico e dos modelos de Bion e Green sobre a formação dos primeiros traços do psiquismo, com destaque ao papel do objeto. Em seguida, tratam das formas da bissexualidade nos tempos do pré-genital, da travessia edípica e do genital adulto, conforme propostas por estudos contemporâneos. Resgatam a proposição de Green da figura do terceiro, que possibilita a inscrição de uma cena primitiva inaugural e abre caminho para a organização da bissexualidade. Ao final, apresentam argumentos teóricos para sustentar que a bissexualidade, em sua dupla referência ao masculino e ao feminino, não deve ser vista como uma confusão de sexos, mas como um ordenador dos processos subjetivos que possibilita a coexistência de dois no psiquismo, em suas configurações singulares e plurais.

Palavras-chave: Bissexualidade psíquica; Diferença; Feminino; Masculino; Constituição psíquica; Subjetivação; Identidade

 

Abstract

Psychic bisexuality in the constitution of the subject: on its origins and identity destinies

This paper proposes an understanding of psychic bisexuality throughout psychosexual development and aims at investigating how this phenomenon is inscribed in the origins of psychic life and shapes the subject’s identity destinies. The authors develop the idea that bisexuality is inscribed in the original psyche by the action of the object and takes part both in the processes of subjectivation and recognition of difference and in its impasses. They address the theme by introducing some theoretical aspects regarding the Freudian conception of the psychic apparatus as well as the models presented by Bion and Green on the constitution of early psychic traits, highlighting the role of the object. Next, they present the forms of bisexuality in the time of the pre-genital, oedipal, and adult one, as proposed by contemporary studies. They repropose Green’s contributions about the third, who enables the inscription of an inaugural primitive scene and opens the way for the organization of bisexuality. Finally, they present theoretical arguments to sustain that bisexuality, in its dual reference to masculine and feminine, should not be seen as confusion of the sexes, but as an organizing factor of the subjective processes which allow the coexistence of two in the psyche, in their singular and plural configurations.

Keywords: Psychic bisexuality; Difference; Feminine; Masculine; Psychic constitution; Subjective processes; Identity

Resumen

La bisexualidad psíquica en la constitución del sujeto: sobre sus orígenes y destinos identitarios

El presente trabajo propone una comprensión de la bisexualidad psíquica en el curso del desarrollo psicosexual, con el objetivo de investigar cómo ese fenómeno se inscribe en los orígenes de la vida psíquica y modela los destinos identitarios del sujeto. Las autoras desarrollan la idea de que la bisexualidad se inscribe en el psiquismo originario por la acción del objeto y participa de los procesos de subjetivación y de reconocimiento de la diferencia, así como de sus impasses. Se introducen aspectos teóricos de la concepción freudiana del aparato psíquico y de los modelos de Bion y Green sobre la formación de los primeros rasgos del psiquismo, destacando el papel del objeto. En seguida se tratan de las formas de la bisexualidad en los tiempos del pre genital, de la travesía edípica y del genital adulto, propuestas por estudios contemporáneos. Rescatan la proposición de Green de la figura del tercero, que posibilita la inscripción de una escena primitiva inaugural y abre el camino para la organización de la bisexualidad. En fin, presentan argumentos teóricos para sostener que la bisexualidad, en su doble referencia al masculino y al femenino, no debe ser vista como una confusión de sexos, sino como un ordenador de los procesos subjetivos que posibilita la coexistencia de dos en el psiquismo, en sus configuraciones individuales y plurales.

Palabras clave: Bisexualidad psíquica; Diferencia; Femenino; Masculino; Constitución psíquica; Subjetivación; Identidad


Palavras-chave


Bissexualidade psíquica; Diferença; Feminino; Masculino; Constituição psíquica; Subjetivação; Identidade

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