Editorial

Lúcia Thaler

Resumo


Em 1961, Willy e Madeleine Baranger redigem seu conhecido artigo A situação analítica como um campo dinâmico, no qual descrevem o fenômeno que eles denominaram de campo analítico, conceito que revoluciona a teoria e a técnica de nosso método de tratamento desde então. O analista deixa de ser considerado apenas um observador do que ocorre no mundo interno do paciente. Ele passa a ser visto não somente como um participante ativo, mas inclusive como um agente modificador daquilo que ocorre entre os dois membros do par. A partir daí, os estudos sobre o campo analítico vêm sendo aprofundados por inúmeros pensadores, e a compreensão e aplicação desse conceito têm se expandido e enriquecido de forma significativa. Podemos dizer que a conceituação do campo analítico provocou uma mudança paradigmática, tornando nossa tarefa mais complexa e ainda mais rica. Assim, nada mais justo do que privilegiarmos na Revista esta temática em pleno desenvolvimento nos mais variados contextos da psicanálise mundial.

Com muita satisfação, fomos surpreendidos por ótima acolhida de parte dos autores para contribuírem com textos sobre campo, o que culminou no recebimento de muitos trabalhos de excelente qualidade, ultrapassando as possibilidades de publicação de todos em um único exemplar da Revista. Por esta razão, decidimos organizar não apenas um, mas dois números especiais: Campo Analítico I, apresentado agora, seguido por Campo Analítico II, a ser publicado em dezembro próximo.

O leitor encontrará, na presente edição, trabalhos de colegas de nossa Sociedade que se têm debruçado sobre esta matéria, bem como de psicanalistas de outras nacionalidades também reconhecidos por seus aportes científicos à

área em questão. Os artigos, na maioria, são teórico-clínicos, os autores demonstrando sua forma de conceber e trabalhar com este conceito.

Iniciamos com o artigo de Paulo Henrique Favalli, o qual propõe uma linha evolutiva, apresentando o desenvolvimento do conceito de campo analítico desde seus primórdios. A seguir Gabriel Sapisochin traz a ideia de que a noção de playing de Winnicott, a noção freudiana de Agieren e o enactment proposto na contemporaneidade se fazem presentes atualmente em todas as teorias da escuta psicanalítica.

Em A lógica do campo, Howard B. Levine procura articular o significado e o potencial valor do conceito de campo no trabalho clínico. A partir da análise de uma adolescente, Ida Ioschpe Gus busca mostrar como se configuram os movimentos de transferência e contratransferência no início desse tratamento, salientando a importância de se realizar uma escuta especial em caso de traumas precoces na história dos pacientes que dificultam a integração de suas vivências.

Um grupo de estudos de colegas de nossa Sociedade, coordenado por Cláudio Laks Eizirik, inspira-se na obra literária Indignação de Phillip Roth para discutir, à luz da teoria do campo analítico, a organização de um campo geracional carregado de conflitos que conduzem o herói do romance a um desfecho trágico.

Em artigo de sua autoria, Giuseppe Civitarese propõe alguns aprofundamentos da teoria do campo na forma de um pequeno glossário imagético, cujos termos se constituiriam, segundo ele, em ferramentas teórico-técnicas para se entrar em contato com a dimensão onírica-inconsciente do diálogo analítico. Finalizamos esta seção com a entrevista que este autor concede ao Conselho Editorial quando de sua visita à nossa Sociedade em agosto do ano passado, no evento denominado Bion por Giuseppe Civitarese.

Temos também a grata tarefa de inaugurar no presente número uma seção especial denominada Responsabilidade Social. As atividades de responsabilidade social vêm sendo estimuladas e desenvolvidas pela IPA e por grande parte de suas organizações componentes. Estamos de pleno acordo com a necessidade de desenvolvermos projetos no sentido de alargar o alcance da psicanálise para além de nossos consultórios. Acreditamos – em consonância com a IPA – que é fundamental propiciarmos um crescente diálogo de nossa disciplina com a cultura, com nossas comunidades e com as mais variadas instituições das mesmas. A psicanálise pode e deve ter também uma função social e gerar conhecimentos, propiciar troca de saberes, contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade melhor e mais justa.

Iniciativas nesse sentido devem ser exaltadas, principalmente em países como o nosso, nos quais ainda existem tantas carências em termos de saúde e de justiça social. Nesse sentido convidamos os colegas que desejarem divulgar seus trabalhos concernentes à Responsabilidade Social a que nos remetam os mesmos com vistas a futuras publicações.

Por ora, manifestamos nosso contentamento por oferecermos neste número da Revista um espaço privilegiado de estímulo e valorização dos trabalhos de âmbito social que vêm sendo desenvolvidos na SPPA com sucesso há muitos anos, produzindo frutos e questionamentos, que enriquecem seus atores. Um deles consiste em atividades realizadas em conjunto com professores de escolas componentes da Secretaria Municipal da Educação de nossa cidade (SMED). Outro se constitui como um trabalho de grupo que alguns colegas desenvolvem com adolescentes e seus pais através do projeto denominado Projeto Pescar. Apresentamos na íntegra a mesa-redonda que teve lugar na SPPA, em maio de 2015, com a exposição desses dois trabalhos. As atividades em conjunto com a SMED são coordenadas por Alice Becker Lewkowicz e Mery Pomerancblum Wolff e o trabalho com o Projeto Pescar por Maria Elisabeth Cimenti. Como conclusão, contamos com os comentários apreciativos dessas duas atividades apresentados por Raul Hartke naquela ocasião.

Desejamos a todos uma ótima leitura.

Lúcia Thaler

Editora da Revista de Psicanálise da SPPA

 




DOI: https://doi.org/10.5281/sppa%20revista.v23i2.237

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